Antes de explicar, o que exatamente você viu?

Série “Aprender a observar” (1/4)

Imagine uma cena simples.

O celular vibra. A pessoa olha para a tela, hesita, vira o aparelho para baixo e fica em silêncio por alguns segundos.

Quase ninguém se contenta em descrever um evento apenas desta forma. Em geral, a cena já vem acompanhada de elementos que dizem mais a respeito de quem interpreta do que daquilo sobre o que foi efetivamente visto: “recebeu uma mensagem ruim”; “ficou ansiosa”; “aquilo a abalou”.

Em poucos segundos, o que foi visto se mistura com interpretações — de forma tão rápida que parece natural.

Mas o que, de fato, aconteceu ali? Muito pouco: um som, um olhar, uma pausa, uma mudança no gesto, alguns segundos de silêncio. Ainda assim, falamos como se víssemos diretamente a própria tristeza, rejeição, preocupação ou ansiedade.

O que de fato foi visto foram ações em um contexto — todo o restante são interpretações.

Uma segunda cena ajuda a tornar isso mais claro.

Um jovem recebe um convite para sair com colegas da faculdade. Lê a mensagem, demora a responder, pensa em aceitar, mas acaba inventando uma desculpa e não vai. Depois, resume: “Melhor não. Não acho que realmente me queiram lá”.

Aqui também a interpretação aparece cedo demais. Antes de observar o que está acontecendo, a situação já é atravessada por expectativas e convertida em conclusão. O incômodo antecipado se organiza em torno dessa leitura — e a esquiva passa a parecer uma decisão evidente.

Muitas dificuldades começam assim.

Desde cedo aprendemos a interpretar, a antecipar e a traduzir ações em qualidades pessoais.

Quem adia tarefas “é procrastinador”.
Quem evita situações “tem ansiedade”.
Quem reage com irritação “é agressivo”.
Quem se retrai “tem baixa autoestima”.

Essas expressões podem eventualmente ajudar na comunicação. Elas resumem padrões e facilitam a conversa. O problema começa quando passam a ser aceitas como explicações. Afinal:

Como sabemos que alguém é procrastinador? Porque adia tarefas.
E por que adia tarefas? Porque é procrastinador.

Como sabemos que alguém tem baixa autoestima? Porque se retrai, se compara, se sente inferior.
E por que faz isso? Porque tem baixa autoestima.

Quando um termo é usado para explicar o próprio comportamento que o definiu, temos um raciocínio circular.

Observa-se um comportamento — alguém adia tarefas.
Dá-se um nome — procrastinação.
O nome vira causa — ele adia tarefas porque é procrastinador.

Na Análise do Comportamento, esse tipo de explicação é chamada de ficção explanatória: uma formulação que parece causal, mas apenas renomeia o fenômeno.

É aqui que a discussão toca o mentalismo.

Há uma crítica clássica — formulada por Gilbert Ryle e retomada por Skinner — que aponta ainda para a tendência de explicar o comportamento apelando a entidades internas, como se houvesse uma “coisa” dentro da pessoa responsável por produzir suas ações — um “fantasma na máquina”, uma pessoa interior.

Apesar de antiga, essa tendência permanece.

Seguimos explicando o que as pessoas fazem como se isso revelasse diretamente algo interno que as causa. O foco sai do comportamento em contexto e vai para algo que a pessoa “é” ou “tem”. E, a partir daí, a investigação tende a parar.

Não porque não haja mais o que observar, mas porque parece que já foi explicado.

Esse tipo de explicação tem força justamente por parecer convincente.

Ela organiza, nomeia, dá sensação de clareza.

Muitas vezes, porém, não acrescenta nada que esclareça –  e ainda favorece a rotulação e o julgamento da pessoa.

Dizer que alguém evita situações porque “tem ansiedade” ou se retrai porque “tem baixa autoestima” pode servir para conter inquietações ou organizar discursos; mas quando isso acontece, perde-se justamente o que fornece base para compreensão e intervenção: a relação entre comportamentos, contextos e história – isto é, aquilo que permite compreender como a pessoa funciona.

A dificuldade, portanto, não está apenas na pressa de explicar. Está no efeito que essa pressa produz.

O resultado é tão sutil quanto danoso: a pessoa perde o contato com o que aconteceu; e passa a viver mais em função das interpretações, por vezes distorcidas, que fez a respeito do que ocorreu.

E a partir desse ponto, observar, questionar ou acessar o que aconteceu… fica mais difícil.

Isso não torna inúteis esses termos.

Ansiedade, procrastinação, desmotivação, baixa autoestima — todos podem ter valor descritivo e clínico.

O problema surge quando passam a ser tratados como causas finais.

Nesse ponto, o comportamento deixa de ser investigado como parte de uma relação e passa a ser visto como efeito de algo interno. A análise se desloca da interação para a essência — e, com isso, perde potência investigativa e limita o horizonte de intervenção.

Na Análise do Comportamento, a descrição não é uma etapa preliminar — é a base do trabalho.

Se descrevemos mal, investigamos mal – e perdemos, assim, o contato com aquilo que estamos tentando compreender.
Se explicamos antes da hora, deixamos de observar.

Por isso, o primeiro movimento aqui não é oferecer uma teoria – afinal, isso pode ser apenas outro modo rápido de descrever, explicar, nomear o que aconteceu. O movimento do analista do comportamento é outro: produzir uma inquietação útil e perguntar sob quais condições o comportamento observado está ocorrendo – e, por vezes, sob quais condições a própria descrição está sendo produzida.

A proposta da Análise do Comportamento segue, portanto, outra direção.

Em vez de perguntar “que característica interna produz esse comportamento?”, a pergunta passa a ser:

em que condições esse comportamento ocorre
e o que ele produz na vida da pessoa?

Esse deslocamento é pequeno na linguagem, mas profundo na análise.

A questão deixa de ser “o que a pessoa é” e passa a ser “o que a pessoa faz, em que condições e com quais efeitos”.

Quando esse ponto se torna visível, ele aparece em muitos lugares do cotidiano.

“Não consigo terminar projetos porque sou procrastinador.”
“Não fui porque minha ansiedade atacou.”
“Não vou porque sei que não vou ser aceito.”

Em todos esses casos, algo real está sendo descrito.

Considere uma situação simples.

Alguém evita interações sociais, fala pouco e vai embora mais cedo. Ao ser perguntado, responde: “o problema é minha baixa autoestima”.

A frase parece explicar.

Mas, ao examiná-la, ela apenas reorganiza o comportamento em forma de causa. A esquiva passa a parecer inevitável — e deixa de ser analisada.

O mesmo ocorre em explicações mais amplas.

Um pai diz que os filhos estão sendo “influenciados”. O termo parece claro, mas raramente descreve interações concretas, condições específicas ou mudanças observáveis.

Mais uma vez, a linguagem substitui a análise.

Se o comportamento da pessoa (suas ações, sentimentos e pensamentos) sustenta a relação entre organismo e ambiente, outras perguntas se tornam possíveis:

Em que situações isso ocorre?
O que acontece antes?
O que muda depois?
O que esse comportamento produz naquele momento?

Essas perguntas não negam a experiência. Elas a reorganizam.

Em suma… Rótulos podem ser úteis. Diagnósticos também.

O problema começa quando o nome ocupa o lugar da análise.

Quando isso acontece, a explicação vira um atalho — e todo atalho tem custo:

  • no plano lógico, produz circularidade
  • no clínico, interrompe a curiosidade
  • no ético, cristaliza a pessoa
  • no técnico, empobrece a intervenção

Descrever antes de explicar não é recusar a interpretação.

É uma disciplina anterior a ela.

Trata-se de uma forma de impedir que a linguagem produza a ilusão de entendimento onde ainda não houve observação suficiente. É a partir dessa diferença que o olhar analítico começa a se formar.

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