18 Presentes — O que uma mãe deixa quando não pode ficar

Certa vez ouvi alguém dizer que morrer é uma das formas mais difíceis de aprender a viver. Talvez porque a perspectiva de fim tenha a capacidade de reorganizar prioridades, interromper automatismos e revelar, às vezes de forma dura, o que realmente importa.

É justamente nesse ponto que 18 Presentes (2019), dirigido por Francesca Archibugi, encontra sua força. O filme não é apenas uma história sobre morte. É uma história sobre o que fazemos com o tempo que temos, sobre as formas que tentamos encontrar para permanecer na vida das pessoas que amamos.

Elisa tem 35 anos, está grávida da primeira filha e descobre um tumor terminal. A partir daí, decide deixar 18 presentes para Anna, um para cada aniversário da filha até a vida adulta. A narrativa alterna entre a mãe, que sabe que não verá a filha crescer, e Anna, aos 18 anos, tentando compreender a ausência que atravessou toda a sua história.

Mas o que o filme mostra vai além da perda em si. Ele retrata diferentes maneiras de responder ao sofrimento — e como essas respostas podem aproximar ou afastar alguém da própria vida.

O que fazemos quando percebemos que não controlamos mais tudo

Há um padrão importante que atravessa os três personagens centrais — Elisa, Anna e Alessio: diante da perda, a primeira reação costuma ser desorientação, negação, raiva, vazio….

O que diferencia os personagens não é a dor que sentem, mas como reagem a ela.

Elisa direciona esse impacto para um propósito concreto. Organiza os presentes, planeja, antecipa situações, tenta construir uma forma de continuar presente mesmo depois da morte. Existe algo profundamente humano nesse esforço: quando não conseguimos impedir uma perda, tentamos ao menos nos organizar diante de seus efeitos.

Esse padrão aparece com frequência fora do filme. Pessoas que transformam sofrimento em tarefa, planejamento, produtividade ou missão. Gente que segue funcionando, resolvendo, antecipando, cuidando. Às vezes isso produz sentido e direção. Outras vezes, funciona como uma tentativa de não entrar em contato com aquilo que não possui solução prática.

Resistência e determinação podem se parecer por fora, mas não são exatamente a mesma coisa.

De um lado, existe a resistência que luta contra o inevitável como se ainda houvesse alguma saída escondida. Já a determinação continua investindo mesmo sem garantia do retorno possível.

Elisa oscila entre essas duas posições ao longo do filme. E talvez uma das perguntas silenciosas da história seja justamente essa: o que sustenta alguém quando já não existe promessa concreta de futuro?

Quando a dor endurece

Anna cresce recebendo os presentes deixados pela mãe. Mas aquilo que deveria funcionar como gesto de amor também mantém viva, ano após ano, a lembrança da ausência.

Sua reação é hostilidade, rebeldia, afastamento. Não porque lhe falte afeto, mas porque se aproximar daquela história significa tocar numa dor que nunca encontrou lugar.

O filme propõe então uma fantasia delicada: mãe e filha têm a oportunidade de conviver quando Anna completa 18 anos. E é nesse encontro impossível que ambas começam a reorganizar algo da própria vida. A jovialidade da filha ajuda Elisa a enfrentar a doença com mais dignidade. Conhecer a mãe ajuda Anna a olhar menos apenas para a própria dor e mais para os outros.

Mas existe aqui um ponto importante que ultrapassa o filme.

Muita gente responde à dor evitando datas, afastando-se emocionalmente, transformando afeto em ironia, crítica ou indiferença. Não por ausência de sensibilidade, mas porque algumas experiências fazem parecer perigoso demais permanecer emocionalmente disponível.

O problema é que o afastamento protege da dor apenas parcialmente. Ao mesmo tempo em que reduz o contato com o sofrimento, também reduz intimidade, presença e vínculo.

Seguir funcionando não é o mesmo que seguir vivendo

Alessio ocupa um lugar mais silencioso na narrativa, mas talvez seja o personagem mais reconhecível para muitas pessoas.

Ele não escolhe a situação. Apenas precisa continuar. Criar a filha, sustentar a casa, cumprir a promessa feita à esposa, entregar os presentes. A vida exige funcionamento mesmo quando alguém ainda não conseguiu elaborar o que perdeu.

Esse padrão aparece com frequência em pessoas que ocupam funções de cuidado ou responsabilidade. Há dor, mas não parece haver tempo legítimo para senti-la. Então a pessoa continua operando no automático, muitas vezes durante anos.

O risco nem sempre é um colapso imediato. Às vezes, o preço aparece lentamente: irritabilidade constante, sensação de vazio, exaustão emocional, desconexão afetiva. Seguir funcionando e seguir vivendo conseguem coexistir por algum tempo. O problema começa quando o funcionamento se torna o único modo possível de existir.

O que realmente permanece

Há uma mudança importante no final do filme. O presente do 18º aniversário deixa de ser apenas um objeto. Elisa já não tenta apenas entregar coisas à filha — tenta entregar algo de si mesma: sua história, suas falhas, seus afetos, sua presença possível.

Esse deslocamento é importante porque aponta para algo frequente também fora da narrativa. Muitas vezes confundimos presença com desempenho. Achamos que estar presente significa resolver, produzir, antecipar, proteger, entregar resultados.

Mas aquilo que mais marca relações humanas costuma surgir em outro lugar: no quanto alguém consegue se mostrar de verdade.

Ao longo do processo, Elisa parece aprender que deixar algo de si vale mais do que qualquer presente embalado.

Talvez por isso o filme fale menos sobre morte do que sobre formas de se permanecer na vida de alguém. A proximidade do fim faz cair algumas máscaras, interrompe personagens que sustentávamos automaticamente e obriga certas perguntas a aparecerem.

O que priorizamos na vida?

O que continua sendo importante quando o supérfluo perde espaço?

Com quem gostaríamos realmente de ter gasto melhor nosso tempo?

O filme não oferece respostas prontas. Apenas sugere que, em alguns momentos, a vida nos obriga a parar o automático para enxergar aquilo que já estava diante de nós.


Para continuar a conversa

  • Quais perdas — grandes ou pequenas — ainda influenciam silenciosamente suas escolhas atuais?
  • O que, na sua vida, funciona como tentativa de controle, mas talvez esteja afastando você do contato com aquilo que considera importante?

No fim das contas, com quem você gostaria de ter gasto melhor seu tempo?

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"Seu legado se comunica não pela grandeza dos títulos, mas pela constância da presença ética e pela forma como traduziu sofrimento em palavra útil."

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